
Crítica escrita porAntônio Hohlfeldtsobre a peça "Dez(quase)Amores"
na foto a atriz Rafaela Cassol.Publicada em dezembro de 2008 no Jornal do Comércio
na foto a atriz Rafaela Cassol.Publicada em dezembro de 2008 no Jornal do Comércio
O espetáculo (quase) perfeito de Bob BahlisDez (quase) amores é um livro de Cláudia Tajes, de 2000, reunindo contos e crônicas. Portanto, o primeiro desafio de Bob Bahlis foi a transformação dos textos esparsos em um trabalho fluido, com uma personagem central, Maria Ana, que narra suas diferenças amorosas em flash back.
O arranjo deu certo: o que são fragmentos variados, a partir de pontos de vista variados, embora sempre a partir de uma mulher, é claro, torna-se um enredo bastante convincente, embora a centralização de todas as iniciativas e experiências amorosas numa única personagem corra o risco de transformá-la em uma ninfomaníaca, como ela mesma refere, num momento final do espetáculo.
Mas a personagem que surge deste roteiro é simpática, humana, compreensiva e compreendida. Cativa a platéia.Poucas peças conseguem, ao final de sua primeira temporada, e na penúltima noite, encher um teatro como Dez (quase) amores conseguiu.
E aqui está o segundo mérito, agora do diretor Bob Bahlis.
Ele conseguiu desenvolver um espetáculo leve, ágil, gostoso de se assistir, sempre interessante e variado. É certo que a duração do espetáculo - hora e meia - parece-me exagerada.
Como ele quis falar de dez amores, dificilmente vai poder mudar isso. Mas acredito que, se ficássemos em uma hora de duração, a platéia sairia com gosto de "quero mais" e o espetáculo renderia muito mais. Porque, na verdade, ao final, ele fica meio repetitivo e cansa.Rafaela Cassol, que vive a personagem-título, foi um bom achado. Ao contracenar com Cláudia Meneghetti, sempre estupenda, ela ganha relevo e o contraponto funciona. O naipe masculino, composto por Marcelo Naz, Fábio Monteiro (bom como o gay, porque não fica afetado nem falso), Gerson Oliveira e Beto Mônaco (excelente como o jovem rebelde dos anos 70) se equilibra, mas não é páreo para a dupla feminina.O cenário cuidado e acabado de Carlos Wladimirsky e de Celso Costa, mais os figurinos de Marga Bressani e a iluminação de Marga Ferreira e Carol Zimermann garantem o bom andamento de todo o espetáculo, que fica bem-pontuado e marcado, evidenciando o ritmo bem-definido de todo o trabalho. A coreografia de Fernanda Carvalho Leite ganha especial relevo na seqüência do baile e do mago pseudamente iugoslavo, porque se reflete diretamente no próprio enredo do espetáculo. A produção de Valeria Verba garantiu todos os cuidados e detalhes necessários, da roupa sempre variada de Rafaela Cassol ao material de divulgação, porque é inequívoco que a lotação do espetáculo tem a ver diretamente com a produção (que cuida da divulgação).Em síntese, Dez (quase) amores é divertido, inteligente, bem seqüenciado e sempre interessante. Varia as cenas, tem boas piadas e reproduz com fidelidade (a referencialidade do noticiário de rádio é uma boa saída) as épocas através das quais se desenvolve a trama, objetivando aquilo que, talvez, nos textos fragmentados, se perderia em idas e vindas que o teatro não admite. O público ri muito, se diverte e acompanha com atenção o que acontece em cena. O diretor Bob Bahlis, uma vez mais, evidencia a competência que possui para a composição da cena como um todo, cuidando detalhes e dando consistência a cada figura que se apresenta na ribalta. O espetáculo, que retorna, por isso mesmo, no Porto Verão Alegre da próxima temporada, deverá continuar fazendo sucesso. Merecidamente. Não é sempre que encontramos um trabalho bem-acabado, bem-concebido e bem-realizado. Mas se pudesse cortar um pouquinho...

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